Porto Alegre avança com ônibus elétricos e prepara compra de 100 veículos

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Porto Alegre completou dois anos de operação regular com ônibus elétricos e prepara uma nova etapa para a mobilidade urbana: a aquisição de 100 veículos articulados movidos a bateria. A experiência acumulada desde agosto de 2024 já permite medir os efeitos da eletrificação sobre custos, emissões e qualidade do transporte coletivo na capital gaúcha.


Segundo reportagem da jornalista Tatiana Bandeira, da Prefeitura de Porto Alegre, com registros fotográficos de Gustavo Roth, os 12 ônibus 100% elétricos que circulam atualmente transportaram mais de 2,8 milhões de passageiros em dois anos. No período, os veículos realizaram aproximadamente 130 mil viagens e percorreram 1,3 milhão de quilômetros.

Ônibus elétricos de Porto Alegre no Terminal Mercado
Ônibus elétricos em operação no Terminal Mercado, em Porto Alegre. Foto: Gustavo Roth/Arquivo/SMMU/PMPA.

Os números transformam a operação em uma referência concreta para o debate sobre transporte sustentável no Brasil. Mais do que testar uma tecnologia, Porto Alegre passou a reunir dados reais sobre autonomia, consumo de energia, manutenção, recarga e adaptação das linhas. Essas informações serão essenciais quando a cidade ampliar a frota.

Três linhas operam integralmente com ônibus elétricos

Atualmente, três linhas funcionam integralmente com veículos elétricos: E178 – Praia de Belas, E378 – Integradora e E703 – Vila Farrapos. As linhas 110 – Restinga Nova via Tristeza e 165 – Cohab também contam com ônibus elétricos em suas tabelas de horários, ampliando gradualmente a presença da tecnologia no sistema.

Nas três linhas totalmente eletrificadas, os usuários do Cartão TRI participam de um projeto-piloto que oferece gratuidade na segunda passagem. O benefício é concedido quando o passageiro embarca em outra linha até 30 minutos depois de desembarcar do ônibus elétrico, sem desconto adicional no saldo do cartão.

Para o secretário municipal de Mobilidade Urbana, Adão de Castro Júnior, a transição energética precisa levar em consideração as diferentes características da operação. O objetivo, segundo ele, é modernizar o transporte coletivo, reduzir emissões e oferecer um serviço mais confortável, eficiente e sustentável.

Economia de R$ 2 milhões e redução de emissões

O balanço divulgado pela prefeitura indica uma economia aproximada de R$ 2 milhões em combustível durante os dois primeiros anos. Entre 19 de agosto de 2024 e 18 de agosto de 2026, as três unidades de recarga rápida forneceram 1.686.874 kWh aos veículos, com consumo médio de 1,29 kWh por quilômetro.

A substituição do diesel pela eletricidade evitou a emissão estimada de 1,76 mil toneladas de gases poluentes. O volume equivale às emissões associadas à queima de 657.428 litros de combustível fóssil. Além dos benefícios ambientais, ônibus elétricos reduzem vibrações e o ruído percebido dentro e fora dos veículos, melhorando a experiência de passageiros, motoristas e moradores das regiões atendidas.

A operação integra o Programa Mais Transporte, criado pela Prefeitura de Porto Alegre para modernizar o sistema, renovar a frota e tornar o serviço mais eficiente. A eletrificação é uma das principais frentes do programa, mas o município também estuda biocombustíveis, hidrogênio e sistemas híbridos.

Porto Alegre prepara compra de 100 ônibus elétricos

A próxima etapa será consideravelmente maior. Em 2026, a prefeitura firmou financiamento de R$ 447,7 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. Os recursos do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, conhecido como Fundo Clima, serão destinados à aquisição de 100 ônibus elétricos articulados a bateria e dos equipamentos necessários para a recarga.

A expansão exigirá planejamento integrado. Não basta comprar os veículos: será necessário dimensionar a capacidade elétrica das garagens, instalar carregadores, organizar os tempos de recarga, avaliar a autonomia em cada trajeto e preparar equipes para manutenção e operação. A experiência dos 12 ônibus atuais fornece uma base importante para reduzir riscos nessa ampliação.

Porto Alegre também integra o projeto AcoplaRE, da agência alemã de cooperação internacional GIZ. A iniciativa oferece assessoria técnica para estratégias de descarbonização urbana por meio da eletrificação do transporte público e ajuda a qualificar o planejamento municipal.

O que Shenzhen ensina sobre transporte elétrico

O avanço de Porto Alegre ainda está em uma escala inicial quando comparado ao que já ocorreu na China. Shenzhen tornou-se, em 2017, a primeira grande cidade do mundo a eletrificar integralmente sua frota de transporte coletivo, com 16.359 ônibus elétricos. No fim de 2019, a cidade também possuía 21.485 táxis elétricos, correspondentes a 99% da frota daquela modalidade.

Orlando Silva na BYD em Shenzhen, China
Orlando Silva, CEO da BR Elétricos, durante visita à BYD em Shenzhen, na China, em 2019. Foto: arquivo pessoal.

O CEO da BR Elétricos, Orlando Silva, acompanhou de perto essa transformação durante uma de suas diversas visitas à China. Segundo ele, um dos aspectos mais marcantes de Shenzhen não aparece apenas nas estatísticas: mesmo em uma megacidade com trânsito intenso, o ruído dos motores deixa de dominar o ambiente urbano.

“Em Shenzhen, o que mais chama a atenção é perceber que, em muitos pontos, ouvimos as pessoas conversando em vez do barulho constante dos motores. A eletrificação não reduz somente a poluição do ar; ela também pode diminuir a poluição sonora dos grandes centros”, observa Orlando Silva.

A experiência chinesa mostra como a eletrificação em larga escala pode modificar a relação entre transporte e cidade. O ônibus elétrico e o carro chinês passaram a ocupar posição central nessa transformação, impulsionados por investimentos em baterias, infraestrutura de recarga e produção industrial. Marcas chinesas também ajudaram a acelerar a disponibilidade de veículos elétricos em diferentes segmentos.

Eletrificação exige continuidade e planejamento

Os resultados de Porto Alegre demonstram que a tecnologia pode reduzir o consumo de combustíveis fósseis, as emissões locais e o custo operacional. Entretanto, a transição precisa ser acompanhada por investimentos em infraestrutura, contratos adequados de energia, qualificação profissional e planejamento das linhas.

Com a chegada prevista dos 100 ônibus articulados, a capital gaúcha poderá ampliar de maneira significativa a participação dos veículos de emissão local zero no transporte coletivo. O desafio será transformar o projeto em uma política contínua, capaz de combinar eficiência, conforto para os passageiros e ganhos ambientais duradouros.

Reportagem: Bruna — BR Elétricos.

Fonte: Prefeitura de Porto Alegre, com informações da jornalista Tatiana Bandeira. Fotos: Gustavo Roth/Arquivo/SMMU/PMPA e arquivo pessoal. Dados internacionais: Prefeitura de Shenzhen e Banco Mundial.

Consulte a publicação original da Prefeitura de Porto Alegre.


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