Os eletrificados já respondem por 58,2% do varejo de carros de passeio da China no acumulado de janeiro a setembro de 2026, e por 67,0% só em setembro, um recorde mensal, segundo a Associação de Carros de Passageiros da China (CPCA). São 7,758 milhões de carros de nova energia (NEV, que reúne elétricos a bateria e híbridos plug-in) em um varejo total de 13,33 milhões. O balanço, porém, tem um lado menos festejado: o varejo total caiu 21,7% no ano e o de eletrificados, 12,8%. A fatia cresce em boa parte porque o mercado de combustão encolhe mais rápido.
O balanço final dos nove meses
Na nossa apuração, os números fechados de setembro saíram em 12/10/2026 e substituem a prévia que circulou dias antes. O quadro reúne o mês e o acumulado do ano.
| Indicador (varejo de carros de passeio) | Setembro/2026 | Acumulado jan-set/2026 |
|---|---|---|
| Total de carros | 1,618 milhão (-28,0%) | 13,33 milhões (-21,7%) |
| Eletrificados (NEV) | 1,084 milhão (-16,7%) | 7,758 milhões (-12,8%) |
| Participação dos NEV | 67,0% (recorde) | 58,2% (cálculo nosso) |
| Elétricos a bateria (BEV) | 765 mil (-7,4%) | Não divulgado no balanço |
| Híbridos plug-in + autonomia estendida | 320 mil (-31,8%) | Não divulgado no balanço |
| Exportações de NEV | 558 mil (+163,5%) | 3,887 milhões (+138,8%) |
Fonte: CPCA, via CnEVPost (12/10/2026). A participação acumulada é nossa conta: 7,758 milhões divididos por 13,33 milhões. Consultado em 21/10/2026.
O que significa “participação dos eletrificados”
Na nossa análise, a pergunta merece uma definição, porque o número muda conforme o critério. A CPCA conta como eletrificados os carros elétricos a bateria (BEV) e os híbridos plug-in, incluindo os de autonomia estendida (EREV). O híbrido convencional (HEV), que não é carregado na tomada, entra na conta da combustão. Se a régua incluísse o HEV, a fatia de carros com algum grau de eletrificação seria maior, mas a CPCA não divulga esse número.
Quem puxa: elétricos a bateria
Em setembro, os elétricos a bateria somaram 765 mil unidades, queda de 7,4% sobre setembro de 2025, mas alta de 9,6% sobre agosto. Os híbridos plug-in e de autonomia estendida somaram 320 mil, queda de 31,8% no ano. Ou seja, o recorte “eletrificados” esconde uma divergência: o elétrico a bateria segura bem melhor o ritmo, e o plug-in perde espaço.

Quem sofre: a combustão
O varejo de carros a gasolina caiu 43% em setembro sobre o mesmo mês de 2025, e a gasolina convencional (sem hibridização) recuou 49%. Os híbridos convencionais, ao contrário, subiram 25%. Em agosto, a combustão já tinha caído 40%, para cerca de 536 mil unidades, e a CPCA relacionou parte da queda ao custo de rodar: a gasolina subiu mais de 1.720 yuans por tonelada em 2026.
Prévia x fechamento: por que os números mudaram
A prévia da CPCA, divulgada em 10/10, falava em 1,141 milhão de eletrificados (-12%) e 1,702 milhão de carros no total (-24%). O balanço final de 12/10 trouxe 1,084 milhão (-16,7%) e 1,618 milhão (-28,0%). Usamos os números finais; a participação ficou em 67,0% em vez dos 67,1% da prévia.
Atacado, varejo e exportações
As montadoras vendem mais para as concessionárias (atacado) do que as concessionárias vendem ao consumidor (varejo). Em setembro, o atacado de NEV foi de 1,666 milhão, alta de 11,3%, enquanto o varejo caiu 16,7%. A diferença é explicada em grande parte pelas exportações, que chegaram a 558 mil unidades no mês. Por isso, “vendas na China” pode significar números bem diferentes, conforme a fonte.
De onde vem a fatia de 58,2%: a conta do ano anterior
Os percentuais de queda permitem estimar a base de 2025 e ver quanto a participação cresceu. Se o varejo total de 13,33 milhões representa queda de 21,7%, o mesmo período de 2025 teve cerca de 17,0 milhões de carros. Se os 7,758 milhões de eletrificados representam queda de 12,8%, a base de 2025 foi de cerca de 8,9 milhões. A fatia do ano passado, nessa conta, ficaria em torno de 52%, contra 58,2% agora. Em outras palavras, a participação subiu cerca de 6 pontos percentuais, sem que os eletrificados vendessem mais: eles venderam menos, só que o mercado total encolheu bem mais. É uma estimativa nossa, feita a partir dos percentuais divulgados, e serve como ordem de grandeza, não como dado oficial da CPCA.
O que significa um recorde de participação num mercado em queda
Um recorde de 67,0% num mês em que o varejo total caiu 28,0% precisa ser lido com cuidado. Ele mostra que o consumidor chinês que continua comprando carro prefere majoritariamente o eletrificado, mas também que há menos compradores no mercado, por razões que incluem o fim de incentivos, o custo do crédito e a retração da confiança. Para a indústria, o desafio é manter fábricas funcionando com menos demanda interna, e é por isso que as exportações de NEV, de 3,887 milhões no acumulado, crescem quase 139%. Para o consumidor de fora da China, isso significa mais oferta e mais pressão por preço, mas também maior dependência de decisões de política comercial de cada país.
Por que o plug-in cai mais que o elétrico
A queda de 31,8% dos híbridos plug-in e de autonomia estendida, contra 7,4% dos elétricos a bateria, merece atenção. As fontes consultadas não apresentam uma explicação única, e preferimos listar hipóteses sem afirmar uma causa. Uma é a mudança no perfil do comprador: quem já decidiu migrar tende a ir direto ao elétrico. Outra é o custo do combustível, que subiu e deveria favorecer o elétrico mais do que o híbrido. Uma terceira é a mudança tarifária e regulatória em mercados externos, que afeta o plug-in como produto de exportação. Para o leitor brasileiro, a lição é que o plug-in, que no Brasil é visto como solução de transição, já enfrenta um movimento de saturação na China, embora aqui ele ainda tenha pouca penetração.
O que isso diz para o Brasil
Na nossa visão, o balanço reforça duas leituras que já fizemos: a China exporta mais porque o mercado interno encolhe, como mostramos em carro elétrico vende menos na China, e a seleção de marcas se acelera, tema de 129 marcas na China. Acompanho esse mercado desde a minha primeira viagem ao país, em 2016, e o que mudou desde então é que a disputa deixou de ser sobre quem faz o carro elétrico e passou a ser sobre quem sobrevive à guerra de preços. O Brasil, vale dizer, está longe de 58%: mesmo com avanço forte, os eletrificados são uma fração do mercado, como vemos no ranking de setembro.
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E você: acredita que o Brasil chegará a 50% de eletrificados nas vendas? Em quanto tempo? Conte nos comentários.
Perguntas frequentes
Qual a participação dos eletrificados no mercado chinês em 2026?
De janeiro a setembro, 58,2% do varejo de carros de passeio, pelo nosso cálculo com os dados da CPCA (7,758 milhões de NEV em 13,33 milhões de carros). Em setembro, a participação mensal foi de 67,0%, um recorde.
As vendas totais de carros na China estão caindo?
Sim. O varejo total caiu 21,7% de janeiro a setembro e 28,0% só em setembro, segundo a CPCA. Os eletrificados caíram menos: 12,8% no acumulado e 16,7% em setembro.
O que a CPCA considera eletrificado?
Carros elétricos a bateria e híbridos plug-in, inclusive os de autonomia estendida. O carro híbrido convencional, que não é carregado na tomada, entra na categoria de combustão.
Os híbridos plug-in estão perdendo espaço na China?
Em volume, sim: em setembro de 2026 as vendas de plug-in e de autonomia estendida caíram 31,8% sobre o ano anterior, enquanto os elétricos a bateria recuaram 7,4%.
Por que os números de setembro mudaram entre a prévia e o fechamento?
A prévia da CPCA indicava 1,141 milhão de eletrificados (-12%); o balanço final trouxe 1,084 milhão (-16,7%). Esta matéria usa os números finais, divulgados em 12/10/2026.
Fontes: CPCA, via CnEVPost (12/10/2026), CnEVPost (prévia, 10/10/2026) e CarNewsChina (08/09/2026). Dados consultados em 21/10/2026. Atualizada em 21/10/2026. Cálculos e análise: BR-Elétricos.
Orlando Silva é administrador de empresas e jornalista, com MBA em Gestão de Negócios, MBA em Gestão de Pessoas e especialização em gestão financeira pela FGV. Foi diretor regional da Leroy Merlin, já esteve em mais de 30 países e fez mais de dez viagens à China desde 2016, com visitas a fábricas de montadoras. É fundador e editor responsável do BR-Elétricos.
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