O carro elétrico está vendendo menos na China: o varejo de veículos de nova energia (NEV, que reúne elétricos a bateria e híbridos plug-in) somou cerca de 6,7 milhões de unidades de janeiro a agosto de 2026, queda de 11,6% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Associação de Carros de Passageiros da China (CPCA). O motivo, porém, não é falta de interesse: o mercado chinês inteiro encolheu, e os carros a combustão encolheram mais. Em agosto, os eletrificados chegaram a 65,2% das vendas no varejo, a maior fatia já registrada pela CPCA.
Em resumo, a China vive um paradoxo: vende menos carros elétricos e, ao mesmo tempo, tem mais carros elétricos do que nunca em proporção. Para o leitor brasileiro, isso importa porque o que acontece lá decide o preço, a oferta e o ritmo de chegada dos modelos chineses ao nosso mercado, tema que já acompanhamos no raio X de setembro das marcas chinesas no Brasil.
O que os números da CPCA mostram
Na nossa apuração, os dados mais recentes da CPCA, consultados em 08/10/2026, mostram dois movimentos simultâneos. Em agosto, o varejo de eletrificados foi de cerca de 1,005 milhão de unidades, queda de 10,1% sobre agosto de 2025. Ao mesmo tempo, a combustão recuou em ritmo muito superior ao dos elétricos: cerca de 536 mil unidades em agosto, queda de 40%, e queda de 30% no acumulado do ano, o que empurrou a participação dos NEV para 65,2%. Dados de setembro ainda estão sendo consolidados pela entidade.
Por que o carro elétrico vende menos na China
Na nossa análise, três fatores explicam a queda, e nenhum deles é “o chinês cansou do carro elétrico”.
1. O incentivo fiscal diminuiu. Até 2025, os NEV eram isentos do imposto de compra. Em 2026, passaram a pagar 5%, metade da alíquota normal de 10%. A mudança antecipou compras no fim de 2025 e esfriou parte da demanda em 2026.
2. A guerra de preços perdeu fôlego. O governo chinês passou a cobrar das montadoras prazos de pagamento mais curtos a fornecedores e a coibir descontos agressivos. Com menos promoção extrema, parte dos compradores adiou a decisão.
3. Um mercado interno saturado. Com mais de 100 marcas disputando o mesmo consumidor, muitos fabricantes passaram a olhar para fora. Em agosto, as exportações de eletrificados cresceram 154,7% sobre agosto de 2025, para cerca de 518 mil unidades, segundo a CPCA, e é por esse caminho que chegam também ao Brasil.
Tabela: o paradoxo chinês em números
| Indicador | Dado | Leitura |
|---|---|---|
| Varejo de NEV, jan-ago/2026 | cerca de 6,7 milhões (-11,6%) | Queda no volume |
| Varejo de NEV, ago/2026 | cerca de 1,005 milhão (-10,1%) | Queda se mantém |
| Participação dos NEV em ago/2026 | 65,2% | Recorde de fatia |
| Imposto de compra dos NEV em 2026 | 5% (era isento em 2025) | Incentivo menor |
| Exportações de NEV | +154,7% em agosto (cerca de 518 mil) | Excedente vai para fora |
Fonte: CPCA, dados consultados em 08/10/2026. Números arredondados.
Por que a fatia sobe se o volume cai?
Porque participação é uma proporção. Se o mercado total cai 20% e os elétricos caem 10%, os elétricos ficam com uma fatia maior do que antes, mesmo vendendo menos. É exatamente o que a CPCA registra na China em 2026.
Conferindo a conta: os números de agosto fecham
Para quem desconfia de que uma fatia recorde possa conviver com queda de vendas, vale testar com os números do próprio texto. Em agosto, o varejo de eletrificados foi de cerca de 1,005 milhão e o de carros a combustão, de cerca de 536 mil. Somados, dão aproximadamente 1,54 milhão de carros no varejo. Os eletrificados, divididos por esse total, resultam em cerca de 65%, valor compatível com os 65,2% informados pela CPCA (conta nossa, com números arredondados). Ou seja, o paradoxo é aritmético: o mercado total encolheu, a combustão encolheu muito mais, e o elétrico, mesmo em queda, passou a ser a maioria.
O que a queda não significa
Há três leituras apressadas que os dados não sustentam. A primeira é que o carro elétrico “fracassou” na China: com 65,2% do varejo, o elétrico e o plug-in já são o produto dominante. A segunda é que a demanda por tecnologia diminuiu: o que caiu foi o ritmo de crescimento sustentado por incentivos fiscais e descontos extremos. A terceira é que o excedente de produção desapareceu: ele foi redirecionado para a exportação, que cresceu 154,7% em agosto sobre o mesmo mês de 2025. A mensagem de fundo é de transição de um mercado movido por subsídio para outro movido por produto e preço.
O que acompanhar nos próximos meses
Três indicadores devem dizer se a queda é pontual ou estrutural: os dados de setembro e do último trimestre da CPCA, que ainda estão sendo consolidados; o comportamento do imposto de compra de 5%, que pode mudar nas regras de 2027; e o volume de exportação, que mostra para onde vai o excedente. Para o Brasil, o terceiro é o mais relevante, porque é por ele que chegam os modelos e a pressão sobre o preço. Se a exportação seguir em alta, a tendência é de oferta mais ampla e disputa mais acirrada por aqui, com o limite imposto pela alíquota de 35% sobre os carros prontos importados.
O que isso muda para o brasileiro
Na nossa visão, há dois efeitos práticos. O primeiro é a oferta: com o mercado interno mais fraco, as marcas chinesas aceleram a exportação e a produção local no Brasil, como a da Geely no Paraná e a da BYD na Bahia. O segundo é o preço: fábrica com capacidade ociosa tende a aceitar margens menores para ganhar volume. Veremos esse efeito em detalhe em outra reportagem da série. Por ora, vale conferir quem já aproveita o movimento no ranking do carros mais vendidos de setembro de 2026, em que o BYD Dolphin Mini aparece em 3º lugar.
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E você: acha que a queda na China é só um respiro ou o sinal de um mercado mais maduro? Conte nos comentários.
Perguntas frequentes
As vendas de carro elétrico estão caindo na China?
Sim, em volume. O varejo de veículos de nova energia caiu 11,6% de janeiro a agosto de 2026, segundo a CPCA. A participação dos eletrificados no total, porém, bateu 65,2% em agosto.
O que significa NEV?
NEV é a sigla de veículo de nova energia, termo usado na China para carros elétricos a bateria e híbridos plug-in. O carro híbrido convencional, que não é carregado na tomada, não entra na conta.
Por que a participação dos elétricos sobe se as vendas caem?
Porque o mercado total de carros caiu mais do que o de elétricos. A fatia é uma proporção do total, e a combustão recuou em ritmo superior ao dos eletrificados.
O fim da isenção de imposto explica a queda?
É um dos fatores. Os NEV passaram a pagar 5% de imposto de compra em 2026, o que antecipou compras no fim de 2025 e reduziu parte da demanda. Também pesam o fim das promoções mais agressivas e a saturação do mercado.
Isso afeta o preço do carro elétrico no Brasil?
Pode afetar. Com mercado interno mais fraco, as marcas chinesas ampliam exportações e produção local, e a concorrência por volume tende a pressionar preços. É uma tendência, não uma garantia.
Fontes: CPCA (Associação de Carros de Passageiros da China), dados consultados em 08/10/2026; Fenabrave (ranking de setembro de 2026). Análise: BR-Elétricos.
Orlando Silva é administrador de empresas e jornalista, com MBA em Gestão de Negócios, MBA em Gestão de Pessoas e especialização em gestão financeira pela FGV. Foi diretor regional da Leroy Merlin, já esteve em mais de 30 países e fez mais de dez viagens à China desde 2016, com visitas a fábricas de montadoras. É fundador e editor responsável do BR-Elétricos.
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