O Brasil pode se tornar a 3ª maior potência de fabricação de veículos do mundo se o cenário político for favorável? Pela nossa análise, o cenário político ajuda, mas não basta: o 3º lugar pertence ao Japão, com 8,4 milhões de veículos em 2025, e o Brasil produziu 2,64 milhões. Seria preciso mais que triplicar a produção.
Onde o Brasil está no ranking de produção
Segundo a OICA, apresentada pela Anfavea, o Brasil voltou a ser o 8º maior produtor do mundo em 2024, com 2,55 milhões de veículos, ultrapassando a Espanha. À frente, na ordem: China, Estados Unidos, Japão, Índia, México, Coreia do Sul e Alemanha. Não localizamos a classificação completa de 2025, então tratamos o 8º lugar como a última posição confirmada.
| País | Produção 2025 | Variação vs. 2024 |
|---|---|---|
| 1. China | 34,5 milhões ou mais | +10% |
| 2. Estados Unidos | 10,2 milhões | -3% |
| 3. Japão | 8,4 milhões | +2% |
| 4. Índia | 6,5 milhões | +8% |
| 5. Alemanha | 4,2 milhões | +2% |
| Brasil (Anfavea) | 2,64 milhões | +3,5% |
Os números de China a Alemanha são da OICA, reportados pela imprensa; o do Brasil vem da Anfavea. Não exibimos as posições 6 e 7 de 2025 por falta de fonte.
O desempenho de 2026 é bom, mas está longe da escala necessária
De janeiro a agosto de 2026, a produção brasileira somou quase 1,9 milhão de veículos, alta de 8,5%, e agosto foi o melhor para o mês desde 2013, conforme a Anfavea. A entidade projeta 2,80 milhões no ano (+5,8%), a maior marca desde antes da pandemia, já que 2019 ficou perto de 3 milhões.
O problema é o que está por baixo desse crescimento. As vendas sobem forte (+18,4% até agosto), mas as exportações caem: -22,9% no acumulado, com o envio à Argentina, principal destino, em queda de 36,6%. E dos 506 mil veículos em estoque no fim de agosto, 324 mil eram importados.
O que um cenário político favorável pode mudar
Incentivos à produção local
O programa Mover dá créditos tributários a quem investe em pesquisa, inovação e eficiência energética. A fábrica da GWM em Iracemápolis (SP), inaugurada em 15/08/2025, foi a primeira habilitada, com investimento total previsto de R$ 10 bilhões (R$ 4 bilhões até 2026 e R$ 6 bilhões até 2032) e capacidade inicial de 30 mil veículos por ano, podendo chegar a 50 mil.
Imposto sobre importados
A alíquota de 35% sobre carros prontos, em vigor desde 01/07/2026, empurra marcas a montar aqui. Mas a Anfavea alerta que o imposto sobre kits CKD pode afetar a produção local em 2027, o que mostra que o desenho da política importa tanto quanto a intenção. Detalhamos o efeito no preço em nossa matéria sobre carros chineses mais baratos.
Novas fábricas e marcas
A Chery estuda fábrica própria para chegar a 500 mil carros por ano até 2031 (veja o plano da Chery), e a GWM busca local para uma segunda planta. A capacidade divulgada da fábrica da GWM, de 30 a 50 mil veículos por ano, mostra a ordem de grandeza: para chegar ao pódio seriam necessários milhões.
O que impede o 3º lugar
- Mercado interno: o Brasil deve vender cerca de 3 milhões de veículos em 2026 (veja nossa análise do último trimestre), mas parte crescente é importada.
- Exportação: para produzir 8 milhões, o país teria de exportar na casa de milhões de veículos. Em 2025 foram 528,8 mil, e a Anfavea projeta 462 mil em 2026.
- Concorrência: a Índia produz 6,5 milhões e cresceu 8% em 2025, o que também eleva a barra.
O estoque revela um problema de composição
Um dado do fim de agosto ajuda a entender por que produzir mais não é a mesma coisa que vender mais carros nacionais: dos 506 mil veículos em estoque, 324 mil eram importados, cerca de 64% do total (conta nossa). Em outras palavras, o excesso de oferta que pesa nas revendedoras vem em boa parte de fora, e não das linhas de montagem brasileiras. Isso tem duas leituras. A favorável é que a produção local ainda tem espaço para ganhar participação, se o imposto de 35% sobre carros prontos desestimular a importação. A cautelosa é que o mercado interno, mesmo aquecido, precisa absorver tanto os importados já embarcados quanto a produção nova, o que limita o ritmo de crescimento das fábricas no curto prazo.
Por que o salto para o 3º lugar é de outra ordem de grandeza
Quando se fala em “virar potência”, é útil lembrar o que sustenta os países do topo. O Japão produz 8,4 milhões de veículos com um parque industrial que exporta para o mundo; a Índia, com 6,5 milhões, combina um mercado interno enorme e crescimento de 8% ao ano. O Brasil tem mercado interno de cerca de 3 milhões de veículos e exportações que, pelos números da Anfavea, estão em queda. Para ocupar o terceiro lugar, o país precisaria somar aos 2,8 milhões de 2026 mais 5,6 milhões de unidades por ano, o que equivale a dezenas de novas fábricas do porte da GWM em Iracemápolis, que tem capacidade inicial de 30 mil veículos. A conta não fecha com os projetos públicos conhecidos, e foi por isso que classificamos o terceiro lugar como possibilidade de longo prazo, e não como meta realista para este ciclo.
Onde o Brasil pode, sim, ganhar posições
Isso não significa que o país não tenha o que comemorar. Subir de posição no ranking é plausível: a produção de 2026 projetada em 2,80 milhões é a maior desde antes da pandemia, e novas fábricas de marcas chinesas, somadas aos incentivos do Mover, dão base para crescer. A trajetória mais provável é a de recuperar o patamar de 3 milhões de unidades e disputar a posição com países vizinhos do ranking, não a de alcançar o pódio. O que mudaria esse quadro seria uma política de exportação consistente, com acordos comerciais e competitividade de custo, e não apenas incentivos para atender o mercado interno.
Veredito da nossa análise
Com política favorável, é plausível subir posições no ranking e voltar ao patamar de 3 milhões de unidades produzidas, nível de 2019. Chegar ao 3º lugar, porém, exigiria um salto de escala (principalmente em exportações) que nenhum anúncio de investimento conhecido até 08/10/2026 sustenta. Por isso, tratamos a manchete como possibilidade de longo prazo, não como projeção.
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E você, acredita que o Brasil pode chegar ao pódio da produção de veículos? Deixe sua opinião nos comentários.
Perguntas frequentes
Qual a posição do Brasil entre os maiores produtores de veículos?
8º lugar em 2024, segundo a OICA e a Anfavea. A classificação de 2025 não foi confirmada por nós.
Quantos veículos o Brasil produziu em 2025?
2,64 milhões, alta de 3,5% sobre 2024, de acordo com a Anfavea.
Quanto o Brasil precisaria produzir para ser o 3º do mundo?
Mais de 8,4 milhões por ano, volume do Japão em 2025, ou seja, mais que o triplo da produção atual.
Qual a projeção de produção para 2026?
A Anfavea projeta 2,80 milhões de veículos, alta de 5,8%.
O que é o Mover?
Programa federal que concede créditos tributários a empresas que investem em pesquisa, inovação e eficiência energética na produção de veículos.
Fontes: Anfavea (via Forbes Brasil, Diário do Comércio e Mercado & Consumo), OICA (via Mezha), InfoMoney, Eixos. Todos consultados em 08/10/2026.
Orlando Silva é administrador de empresas e jornalista, com MBA em Gestão de Negócios, MBA em Gestão de Pessoas e especialização em gestão financeira pela FGV. Foi diretor regional da Leroy Merlin, já esteve em mais de 30 países e fez mais de dez viagens à China desde 2016, com visitas a fábricas de montadoras. É fundador e editor responsável do BR-Elétricos.
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