A JAC Motors confirmou o fim de dois carros elétricos e o fechamento de concessionárias no Brasil. Um levantamento do histórico de vendas na China mostra que o movimento por aqui reproduz, com anos de atraso, um encolhimento que já vem acontecendo dentro do país de origem da marca desde 2016.
Esse avanço ajuda a explicar como a indústria do carro chinês vem acelerando o desenvolvimento de tecnologias, plataformas e novos modelos eletrificados.
A JAC Motors anunciou, em nota oficial enviada à Autoesporte, que está passando por um “reposicionamento estratégico” no Brasil. Na prática, isso significou a saída de linha dos elétricos E-JS4 e E-J7, sem estoque e sem previsão de reposição, e a redução da rede de concessionárias de cinco para três pontos de venda no país — restando apenas as unidades de São Paulo (Limão), Curitiba e Porto Alegre.
A marca nega estar deixando o Brasil. Segundo o comunicado oficial, a empresa “segue com sua operação e atendimento normalmente”, agora concentrada na picape Hunter e em um modelo de vendas online desenvolvido nos últimos dois anos. O terceiro carro de passeio da marca, o hatch elétrico E-JS1, segue à venda como linha 2027, mas não foi sequer citado na nota — o que alimenta dúvidas sobre sua permanência.
O que os números da China mostram
Para entender a direção da JAC no Brasil, vale olhar para o que aconteceu com a marca em seu mercado de origem. E o quadro é revelador.
Segundo levantamento do Car Sales Base, 2016 foi o melhor ano histórico da JAC em vendas de carros de passeio na China. De lá para cá, a curva é de queda constante:
- 2020: 89.159 carros de passeio vendidos
- 2021: 33.539 unidades — queda de cerca de 62% em um ano
- 2022: aproximadamente 16.000 unidades — nova queda de mais de 50%
Em seis anos, a JAC perdeu mais de 90% do seu volume de vendas de carros de passeio no mercado doméstico chinês.
O declínio não significou o fim da empresa — mas sim uma mudança de rota. A partir de 2023, a JAC reorientou o negócio:
- 2023: encerrou o contrato de fabricação para a Nio, que comprou as fábricas da JAC em Hefei por cerca de US$ 440 milhões
- 2023: vendeu 55.000 picapes, das quais 42.000 foram exportadas — o foco passou a ser mercado externo, não interno
- Dezembro de 2023: assinou parceria com a Huawei
- Novembro de 2024: lançou a Maextro, marca de altíssimo luxo elétrico em parceria com a Huawei — um nicho restrito, sem volume de rua
- 2024: tornou-se líder chinesa em exportação de vans e comerciais leves
- 2025: a JAC Motors (marca listada na bolsa de Xangai) fechou o ano com 384.000 veículos vendidos, queda de 4,72% — puxada justamente pelo segmento de passeio: SUVs (-13,7%), sedãs (-12,5%) e elétricos de passeio (-7,2%)
O relato de quem viu a mudança de perto
Orlando Silva, criador do canal BR-Elétricos e frequentador da China há uma década, viveu essa transformação de forma direta. Ele esteve no país pela primeira vez em 2016 e já visitou a China mais de dez vezes desde então.

“Em 2016, a gente enxergava muito carro da JAC na rua — muitos modelos, inclusive alguns que ainda poderiam chegar ao Brasil”, relata Orlando. “Nessa minha viagem deste ano, o que eu vi foi praticamente o desaparecimento dos carros da JAC na China.”
A percepção de Orlando é exatamente o que os números confirmam: o pico de presença da marca nas ruas chinesas coincide com 2016, o melhor ano histórico de vendas de passeio da JAC. A curva de queda que veio depois — e que só ficou visível a olho nu com o tempo — é a mesma lógica que agora chega ao Brasil, com a saída de dois modelos de linha e o encolhimento da rede de concessionárias.

A experiência de Orlando com a marca no Brasil também é direta: ele foi dono de um JAC T6, o SUV médio branco lançado por aqui em 2015, e rodou 230 mil quilômetros com o carro. “Foi um carro excelente, espaçoso, confortável — como boa parte dos chineses de primeira e até de segunda geração”, conta. O problema que enfrentou não foi de qualidade de fabricação, mas de adequação ao piso brasileiro, que acabou cobrando um preço da suspensão do veículo ao longo do tempo. Mais grave, segundo ele, foi o que veio depois: “fui vendo gradativamente a rede de concessionárias diminuir e as peças ficarem cada vez mais difíceis de comprar” — o mesmo sintoma que hoje se repete, em escala nacional, com o fechamento de lojas e a incerteza sobre a manutenção dos modelos elétricos.
O alerta para o consumidor brasileiro
Para Orlando, esse histórico deveria servir de alerta para quem tem ou pensa em comprar um carro de passeio da JAC no Brasil. “Para padrões chineses, uma marca encolher desse tamanho é muita coisa. E com um produto só, nenhuma marca sobrevive no Brasil”, avalia.
O ponto de atenção, segundo ele, é duplo: o encolhimento já em curso na China somado aos problemas de gestão que a marca teve especificamente no Brasil — como as promessas não cumpridas de fábricas na Bahia e em Goiás desde a chegada ao país em 2010. A combinação dos dois fatores é o que torna o momento atual da JAC brasileira mais delicado do que um simples ajuste de portfólio.
“Eu vejo com tristeza esse encolhimento da JAC”, resume Orlando, “mas entendo que não é um problema brasileiro isolado — é uma extensão de algo que já vinha acontecendo na China, com o encolhimento e quase o desaparecimento da marca em carros de passeio por lá.”
Enquanto isso, concorrentes chinesas como BYD e Geely seguem em expansão acelerada no Brasil — um contraste que reforça que o problema não é o mercado brasileiro rejeitando marcas chinesas, mas sim a trajetória específica da JAC.
O que isso significa para quem já tem um JAC Motors no Brasil
Para quem já rodou com um JAC no Brasil, a recomendação prática é acompanhar de perto a disponibilidade de peças na rede reduzida a três concessionárias e considerar negociar revisões e itens de manutenção com antecedência, antes que o estoque de componentes fique ainda mais escasso. Quem está pensando em comprar um seminovo da marca deve levar esse cenário em conta na hora de negociar o preço, já que a liquidez de revenda tende a cair junto com a rede de assistência disponível — o mesmo padrão observado em outras marcas chinesas que reduziram operação no Brasil nos últimos anos.
Fontes consultadas
- Nota oficial da JAC Motors enviada à Autoesporte sobre o reposicionamento da operação brasileira.
- Car Sales Base — histórico de vendas da JAC no mercado chinês.
- JAC Motors Brasil — linha de veículos e rede oficial.

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