O grupo Chery confirmou que vai operar sete marcas no Brasil até 2028, com um plano que mira vender 500 mil carros por ano no país até 2031 — e que inclui, pela primeira vez, um compromisso público de trazer modelos de entrada abaixo de R$ 100 mil. Mais do que o lançamento de um carro específico, o que está em jogo é uma reestruturação completa de como o maior grupo automotivo chinês pretende disputar o mercado brasileiro, da entrada ao segmento de luxo.
Esse movimento reforça como o carro chinês ganhou espaço entre os consumidores brasileiros ao combinar tecnologia, equipamentos e preços cada vez mais competitivos.
Sete marcas, uma só estrutura por trás
Hoje o grupo já opera no Brasil com a dupla Omoda e Jaecoo, além da própria Chery e da Jetour, que seguem como operações independentes dentro do conglomerado. A novidade é a chegada de mais quatro marcas: iCaur, com estreia prevista para 2027 e posicionamento em SUVs de desenho anguloso, inspirado em referências como a Land Rover; a Lepas, também para 2027, com SUVs de perfil mais tradicional, na linha do que já era vendido no Brasil sob a antiga Caoa Chery; e, para 2028, o trio Luxeed, Freelander e Exeed, todas voltadas ao segmento premium.
A informação foi confirmada durante a apresentação do plano de operação da iCaur, marca que será administrada pela mesma dupla já responsável por Omoda e Jaecoo no país. Segundo Alessandra Sousa, diretora de marketing da Omoda e Jaecoo no Brasil, a lógica do grupo é usar essa estrutura compartilhada para acelerar a chegada de cada nova marca sem multiplicar operações do zero a cada lançamento.
Segmento A00: a aposta abaixo de R$ 100 mil
A parte mais chamativa do plano é a confirmação de que quatro das sete marcas — Omoda, Jaecoo, Lepas e iCaur — vão oferecer ao menos um modelo no chamado segmento A00, a categoria de carros mais compactos e baratos, usada como porta de entrada do consumidor. Segundo Sousa, a meta do grupo é ter, ao todo, seis veículos operando nessa faixa no Brasil, todos com valor de referência abaixo de R$ 100 mil.
O número é relevante porque hoje o mercado brasileiro de carros novos não tem opção elétrica abaixo dessa marca: os hatches e sedãs a combustão mais baratos partem de cerca de R$ 80 mil, enquanto os SUVs de entrada começam na casa dos R$ 100 mil — e nenhum elétrico chinês vendido aqui hoje chega perto desse teto. Luxeed, Exeed e Freelander seguem por um caminho diferente, todas posicionadas no segmento premium do grupo, sem produtos de entrada previstos.

Cronograma: o que chega e quando
Juntando as informações divulgadas pelo grupo, o calendário de expansão fica assim:
| Marca | Situação | Segmento |
|---|---|---|
| Chery e Jetour | Já operam, de forma independente | Linha geral / SUVs e picapes |
| Omoda e Jaecoo | Já operam no Brasil | SUVs, com aposta futura em entrada (A00) |
| iCaur | Estreia prevista para 2027 | SUVs de design anguloso + entrada (A00) |
| Lepas | Estreia prevista para 2027 | SUVs tradicionais + entrada (A00) |
| Luxeed | Estreia prevista para 2028 | Premium |
| Freelander | Estreia prevista para 2028 | Premium |
| Exeed | Estreia prevista para 2028, marca-guarda-chuva do segmento de luxo | Premium |
Para 2026, o grupo já projeta ultrapassar 150 concessionárias em operação no Brasil e superar 10 mil vendas mensais somando todas as marcas ativas — um ritmo que, segundo o próprio grupo, precisa mais que sextuplicar até 2031 para viabilizar a meta final.
Mil concessionárias e fábrica própria até 2031
A oferta de carros mais baratos é só uma parte de um plano bem mais amplo. Para chegar à meta de 500 mil unidades vendidas por ano em 2031, a Chery projeta expandir a rede para cerca de mil concessionárias no país, um salto expressivo frente às pouco mais de 150 previstas para o fim deste ano. O vice-presidente do grupo, Roger Corassa, confirmou que a companhia estuda a instalação de uma fábrica em território nacional, avaliando incentivos fiscais oferecidos por diferentes estados — movimento que seguiria o mesmo caminho já adotado por outras montadoras chinesas que decidiram nacionalizar produção no Brasil em vez de depender só de importação. Corassa também mencionou que uma eventual integração regional, atendendo países vizinhos a partir de uma base brasileira, faz sentido dentro da estratégia de longo prazo do grupo.
O QQ3 e a lógica por trás do plano
Um exemplo do apetite do grupo pelo segmento de entrada já roda na China: o Chery QQ3, elétrico compacto lançado em março de 2026 como releitura do clássico QQ vendido no Brasil entre 2011 e 2020, hoje sai por lá em faixa de preço equivalente a R$ 45 mil a R$ 60 mil. O modelo não tem lançamento confirmado no Brasil e não faz parte oficialmente da lista de seis veículos A00 anunciada pelo grupo, mas ilustra o racional por trás da estratégia: usar plataformas e escala já validadas na China para viabilizar preços agressivos em carros de entrada no Brasil. Para a ficha técnica completa do QQ3, a comparação com os elétricos de entrada já vendidos aqui e uma análise sobre a viabilidade de ele chegar nacionalizado, vale a leitura da nossa cobertura dedicada sobre o Chery QQ3 e suas chances de furar o teto dos R$ 100 mil no Brasil.
O que isso significa para o consumidor
A movimentação do grupo Chery reforça uma tendência que já aparece em outras montadoras chinesas no Brasil: multiplicar submarcas para cobrir diferentes faixas de preço e público, da entrada ao segmento premium, em vez de concentrar tudo em um único nome. É a mesma lógica que já levou o grupo a lançar a dupla Omoda e Jaecoo no país, e que contrasta com o caminho inverso tomado por marcas como a JAC, que reduziu sua linha de carros de passeio recentemente.
Se o plano se confirmar, os modelos de entrada das marcas do grupo Chery vão brigar diretamente com o segmento hoje dominado por elétricos como o BYD Dolphin G — categoria que já vem puxando o crescimento das vendas de elétricos e híbridos no país, com alta expressiva registrada em 2026. É importante manter o ceticismo saudável de sempre: planos de expansão desse tamanho, com sete marcas, mil concessionárias e uma fábrica ainda em fase de estudo, dependem de uma execução longa e sujeita a atrasos — o próprio histórico do setor automotivo chinês no Brasil mostra que nem todo anúncio de expansão se cumpre no prazo original. Ainda não há data confirmada para o lançamento dos primeiros modelos de entrada nem os nomes específicos dos veículos que vão ocupar a faixa abaixo de R$ 100 mil.
Fontes consultadas
- SMABC — Efeito China: ofensiva chinesa traz 7 novas marcas de carros ao Brasil até 2028
- Mobiauto — Chery planeja ter carros abaixo dos R$ 100 mil no Brasil; veja o plano
- Mundo do Automóvel — Chery confirma ofensiva no Brasil e mira vender 500 mil carros por ano até 2031
- Grupo Sentinela — Chery confirma 3 novas marcas no Brasil: Freelander, Exeed e Luxeed
- Auto+ TV — Chery quer vender meio milhão de carros por ano no Brasil com sete marcas
Metas de vendas, cronogramas de lançamento e planos de fábrica citados neste texto vêm de declarações do próprio grupo Chery e podem mudar conforme a estratégia da companhia avança no Brasil.
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