A Noruega bateu um novo recorde em setembro de 2026: 98,8% dos carros novos emplacados no país foram 100% elétricos. Dos 18.733 automóveis registrados no mês, 18.511 eram elétricos a bateria, segundo o Conselho Norueguês de Informações sobre o Tráfego Rodoviário (OFV), que divulgou os dados na quinta-feira (1º). Somando os poucos híbridos vendidos, praticamente 100% do mercado norueguês já é eletrificado. A seguir, mostramos os números, os carros mais vendidos e o que separa a Noruega do Brasil.
Os números de setembro na Noruega
O recorde veio junto com um mercado aquecido. As vendas totais de carros novos cresceram 31% em relação a setembro de 2025. Fora os elétricos, os outros tipos de motor somaram números de dois dígitos: foram 99 híbridos convencionais a gasolina, 77 carros a diesel, 32 híbridos plug-in e apenas 14 carros só a gasolina em todo o país.
No acumulado de janeiro a setembro, os carros elétricos responderam por 97,8% de todos os emplacamentos, num total de 115.196 automóveis novos. Para o OFV, o mercado norueguês já é quase inteiramente elétrico, e a disputa agora acontece em preço, autonomia, espaço, prazo de entrega e financiamento, não mais entre tipos de motor.
Os carros elétricos mais vendidos da Noruega em setembro
O Tesla Model Y continua imbatível: foram 4.810 unidades, cerca de um quarto de todo o mercado. Como marca, a Tesla somou 4.935 emplacamentos e 26,3% de participação, voltando ao primeiro lugar pela primeira vez desde junho. Um detalhe interessante: mesmo vendendo 2,2% mais que em setembro de 2025, a Tesla perdeu participação (era 33,7%), sinal de que a concorrência está mais equilibrada.
| # | Modelo | Emplacamentos (set/2026) | Participação |
|---|---|---|---|
| 1 | Tesla Model Y | 4.810 | 25,7% |
| 2 | Volvo EX30 | 576 | 3,1% |
| 3 | Mercedes-Benz GLC | 568 | 3,0% |
| 4 | Toyota bZ4X | 567 | 3,0% |
| 5 | Volkswagen ID.4 | 516 | 2,8% |
| 6 | BYD EVO 4×4 | 405 | 2,2% |
| 7 | Audi Q4 e-tron | 378 | 2,0% |
| 8 | BMW iX3 | 352 | 1,9% |
| 9 | Kia EV5 | 350 | 1,9% |
| 10 | Toyota Urban Cruiser | 334 | 1,8% |
Fonte: OFV, via electrive.com (dados de setembro de 2026, divulgados em 1º de outubro).
As chinesas dobraram de tamanho na Noruega
O dado que mais interessa ao leitor brasileiro está fora do pódio. Segundo o OFV, XPeng e BYD somaram juntas 7,1% do mercado norueguês em setembro, mais que o dobro dos 3,5% de um ano antes. O BYD EVO 4×4 foi o único modelo chinês no top 10, mas o BYD Sealion 7 (15º), o XPeng G9 (20º), o XPeng G6, o MG4, o Zeekr 7GT e o Changan Deepal S05 apareceram entre os 30 mais vendidos. Ou seja, num mercado onde o comprador já não escolhe se vai ter carro elétrico, só qual carro elétrico, as marcas chinesas estão ganhando espaço na base da qualidade e do preço, a mesma disputa que vemos hoje no Brasil.
Se quase todo carro novo é elétrico, a frota já é elétrica?
Ainda não, e esse é o dado que coloca o recorde em perspectiva. Em 30 de setembro, a Noruega tinha 1.043.983 carros elétricos registrados, 35,3% de toda a frota de automóveis. Pela primeira vez, o carro elétrico virou o maior grupo da frota, à frente do diesel (29,4%) e da gasolina (22,9%). Mas dois em cada três carros que rodam nas ruas norueguesas ainda queimam combustível. Trocar a venda leva poucos anos; trocar a frota leva mais de uma década.
Noruega vs Brasil: a distância em números
No Brasil, a eletrificação também acelera, mas parte de outro patamar. Segundo a Fenabrave, os automóveis e comerciais leves eletrificados (somando elétricos, híbridos plug-in e híbridos) chegaram a cerca de 24% das vendas em agosto de 2026, recorde no país. Considerando só os 100% elétricos, a participação passou de 5% em fevereiro para 10,4% em agosto, de acordo com levantamento da Mecânica Online. Os números mais recentes do nosso mercado estão no ranking dos carros mais vendidos de setembro.
| Indicador | Noruega | Brasil |
|---|---|---|
| Participação de carros 100% elétricos nas vendas | 98,8% (set/2026) | 10,4% (ago/2026) |
| Eletrificados (elétricos + híbridos) nas vendas | Praticamente 100% | Cerca de 24% (ago/2026) |
| Carro elétrico mais vendido | Tesla Model Y | BYD Dolphin Mini |
| Peso do híbrido | Residual | Grande (HEV, HEV flex e PHEV) |
Fontes: OFV (Noruega); Fenabrave, via AutoIndústria, e Mecânica Online (Brasil). Os percentuais brasileiros usam bases diferentes (eletrificados sobre automóveis e comerciais leves; elétricos sobre vendas de automóveis) e servem como referência de ordem de grandeza.
Um país pequeno, com frio e escuridão: por que o exemplo vale para o Brasil
É preciso colocar os números em escala. A Noruega tem cerca de 5,6 milhões de habitantes, menos que a cidade de São Paulo, e um território de aproximadamente 385 mil km², cerca de 22 vezes menor que o do Brasil. O mercado de carros novos de lá é minúsculo perto do brasileiro. Então por que olhar para ela?
Porque a Noruega tinha tudo para dar errado com o carro elétrico. Os invernos são longos, com temperaturas abaixo de zero por meses e pouquíssima luz no norte do país. O frio é o pior cenário para uma bateria: reduz autonomia e deixa a recarga mais lenta. E, ironia das ironias, o país é um dos grandes produtores de petróleo do mundo. Mesmo assim, quase 100% das pessoas tiveram coragem de trocar o motor a combustão pelo elétrico. O que explica isso não é o clima nem a riqueza sozinha: são decisões que foram tomadas, uma a uma, ao longo de mais de 30 anos.
O que a Noruega fez: as 5 decisões que deram coragem ao comprador
1. Fez o carro elétrico ficar mais barato que o a combustão
A política começou por volta de 1990. O ponto central foi o bolso: desde 2001, o carro elétrico ficou isento do IVA de 25% cobrado sobre os carros novos, enquanto os carros a combustão pagam um pesado imposto de registro, que chega em média a cerca de 9.340 euros por carro, segundo a operadora de recarga Electra. Somaram-se pedágios mais baratos, desconto de 50% nas balsas, estacionamento com tarifa reduzida e permissão para usar faixas de ônibus. Ou seja, o governo não proibiu nada: só fez a conta do elétrico ficar melhor. E financiou boa parte disso com a receita do próprio petróleo.
2. Levou a recarga para perto de todo mundo, inclusive do interior
A Noruega tem hoje mais de 24 mil pontos de recarga públicos, sendo quase 8 mil rápidos (a partir de 50 kW), o equivalente a cerca de 436 pontos para cada 100 mil habitantes. Nas rodovias principais, há carregador a cada 50 km, aproximadamente. A rede não ficou só na capital: a província de Troms og Finnmark, no extremo norte, com apenas 3,2 habitantes por km², tem cerca de 550 pontos públicos. Foi isso que eliminou o medo de ficar parado na estrada.
3. Garantiu por lei o direito de carregar em casa, inclusive em prédio
Este é, na nossa visão, o ponto mais subestimado. Com uma lei apresentada pelo governo em 2020, quem mora em condomínio ou cooperativa habitacional na Noruega passou a ter o direito de instalar um carregador na sua vaga. A administração do prédio só pode negar se houver um motivo técnico justificado. E a lei resolveu quem paga: o morador banca o próprio carregador e a energia que consome, e a adequação da rede elétrica do prédio é dividida entre todos os condôminos, como qualquer outra despesa comum. Com isso, a maior parte da recarga acontece em casa, durante a noite, e o carregador público vira complemento.
4. Mostrou que o frio não é impedimento
Ninguém escondeu o problema. No inverno, o carro elétrico perde de 20% a 30% de autonomia, mesmo com bomba de calor, segundo a Electra. Mas pesquisas no país não encontraram número maior de panes nos elétricos por causa do frio, e a Electra afirma que, a -20 °C, eles chegam a ser mais confiáveis que os carros a combustão. Funções como o pré-aquecimento da cabine e da bateria com o carro ainda na tomada viraram rotina. O comprador norueguês aprendeu que o elétrico anda menos no inverno, e passou a planejar isso, em vez de desistir.
5. Tem energia limpa e barata, e regras previsíveis
Cerca de 92% da eletricidade norueguesa vem de hidrelétricas, o que torna a recarga barata: segundo a Electra, rodar 100 km custa em torno de 1 euro em casa. E as regras foram anunciadas com antecedência. Agora que a meta foi praticamente cumprida, o país começou a retirar os benefícios: desde 1º de janeiro de 2026, a isenção de IVA vale só para elétricos abaixo de um limite de preço menor, e o plano do governo é encerrar o incentivo em 2027. Mesmo assim, setembro bateu recorde, o que sugere que o mercado já anda sozinho.
O que o Brasil pode copiar, e o que não precisa
Na nossa visão, o Brasil não vai copiar a Noruega, e nem precisa. Somos um país continental, com etanol, renda bem menor e recarga ainda concentrada nas capitais. Por isso, aqui o carro híbrido (inclusive o flex) tem um papel que lá nunca teve: ser a ponte entre a combustão e o elétrico.
Mas há três lições que servem direto para nós. A primeira é a energia: assim como a Noruega, o Brasil tem uma matriz elétrica majoritariamente renovável, com muita hidrelétrica, o que torna o carro elétrico daqui realmente mais limpo que o de países que dependem de carvão. A segunda é o direito de carregar em casa: São Paulo deu um passo parecido com o norueguês com a Lei estadual 18.403, de fevereiro de 2026, que impede o condomínio de proibir de forma genérica a instalação de carregador na vaga do morador. A diferença é que a lei paulista deixou em aberto quem paga quando o prédio precisa de reforço na rede elétrica, justamente o ponto que a Noruega resolveu na própria lei. Para quem vai instalar, mostramos as opções no nosso guia de wallbox para casa. A terceira é a previsibilidade: regras de imposto anunciadas com antecedência e investimento contínuo em recarga nas rodovias, e não só nas capitais. Foi isso, mais do que qualquer bônus isolado, que deu coragem ao comprador norueguês.
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E você: acha que o Brasil um dia chega perto da Noruega, ou o nosso caminho é outro? Conte nos comentários.
Perguntas frequentes
Quantos carros elétricos foram vendidos na Noruega em setembro de 2026?
Foram 18.511 carros 100% elétricos, de um total de 18.733 automóveis novos, o que dá 98,8% do mercado, recorde histórico, segundo o OFV.
Qual o carro mais vendido da Noruega?
O Tesla Model Y, com 4.810 unidades em setembro de 2026, cerca de um quarto do mercado. Em maio de 2026, ele se tornou o primeiro carro a passar de 100 mil emplacamentos no país.
Ainda dá para comprar carro a combustão na Noruega?
Dá, mas quase ninguém compra. Em setembro de 2026 foram só 77 carros a diesel e 14 a gasolina em todo o país, além de 99 híbridos convencionais e 32 híbridos plug-in.
O que a Noruega fez para quase todo mundo comprar carro elétrico?
Cinco coisas, ao longo de mais de 30 anos: deixou o carro elétrico mais barato (isenção do IVA de 25% desde 2001 e imposto pesado sobre carros a combustão, além de pedágio, balsa e estacionamento mais baratos), espalhou a recarga pelo país (mais de 24 mil pontos públicos, quase 8 mil rápidos), garantiu por lei o direito de instalar carregador em condomínio, mostrou que o frio não impede o uso e manteve regras previsíveis, com energia barata de hidrelétricas.
Carro elétrico funciona no frio da Noruega?
Funciona. No inverno, a autonomia cai de 20% a 30%, mesmo com bomba de calor, mas pesquisas no país não encontraram mais panes nos elétricos por causa do frio. O pré-aquecimento da cabine e da bateria com o carro na tomada é um hábito comum dos motoristas noruegueses.
Quantos carros elétricos rodam na Noruega?
Em 30 de setembro de 2026, eram 1.043.983 carros elétricos, 35,3% da frota de automóveis. Os elétricos já são o maior grupo da frota, à frente do diesel e da gasolina.
Qual a participação dos carros elétricos no Brasil?
Em agosto de 2026, os carros 100% elétricos chegaram a 10,4% das vendas, segundo levantamento da Mecânica Online, e os eletrificados (elétricos e híbridos) a cerca de 24% de automóveis e comerciais leves, segundo a Fenabrave.
Fontes: OFV (Opplysningsrådet for veitrafikken), via electrive.com e TT/Sweden Herald; Reuters (Tesla na Noruega); Fenabrave, via AutoIndústria; Mecânica Online; Notebookcheck (regras de IVA de 2026); Electra (incentivos, rede de recarga e inverno); Undark (histórico das políticas); NBBL, federação norueguesa de cooperativas habitacionais (direito de recarga em condomínio); Migalhas (Lei paulista 18.403/2026). Análise: BR-Elétricos.
Orlando Silva é administrador de empresas e jornalista, com MBA em Gestão de Negócios, MBA em Gestão de Pessoas e especialização em gestão financeira pela FGV. Foi diretor regional da Leroy Merlin, já esteve em mais de 30 países e fez mais de dez viagens à China desde 2016, com visitas a fábricas de montadoras. É fundador e editor responsável do BR-Elétricos.
Todo conteúdo publicado passa por apuração e revisão do editor responsável. Conheça o autor e veja como produzimos nosso conteúdo.


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